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Louva-a-deus são insetos carnívoros? Sim, disso não há dúvidas. Porém nosso registro inédito revela, pela primeira vez no mundo, um louva-a-deus alimentando-se de material vegetal na natureza! Um indivíduo selvagem de Stagmatoptera precaria foi fotografado comendo látex de mamão, despertando muitas perguntas e nos lembrando que pouco conhecemos do comportamento dos mantis em seu habitat.

Publicada pela Entomological Communications, essa nota científica inaugura uma nova página na pesquisa de louva-a-deus: o uso e necessidade de fontes complementares de alimento na natureza. Para completar, o látex do mamão é considerado tóxico. Investigar como um mantis é capaz de processá-lo pode levar a descobertas importantes para a biomimética, área que estuda fenômenos e estruturas naturais para aplicação à nossa sociedade.

LANNA, HERCULANO, CAVALCANTE, GODOY & TEIXEIRA, 2021

"First record of non-carnivore feeding behavior in a wild praying mantis (Mantodea: Mantidae)"

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Stagmatoptera Precaria feeding on Papaya
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UM REGISTRO RARO E SURPREENDENTE

Era 2016. O Projeto Mantis tinha sido recém-fundado e estávamos em nossa sétima viagem de campo em Valença, município no interior do Rio de Janeiro. Ao longo do fim de semana, apareceram sete adultos da espécie Stagmatoptera precaria em nossa armadilha de luz. Sempre seguimos o protocolo de criar todos os louva-a-deus coletados até a morte natural e evitar coletar em excesso. Assim, decidimos liberar três deles. Foi o protocolo, incomum no estudo de insetos, que permitiu a descoberta.

Pela manhã, nossa equipe saiu para a soltura. A cada louva-a-deus liberado, fazíamos fotos para acervo até ele voar. O último indivíduo foi solto em um mamoeiro, acaso que levou ao comportamento nunca antes registrado. Voluntária na viagem, nossa amiga Julia Moragas resolveu pegar um mamão para comer mais tarde, levando a planta a liberar seu característico látex. Imediatamente o louva-a-deus começou a subir pelo tronco e parou em frente à fonte da substância branca e viscosa, abaixando-se. O inseto começou a se alimentar incessantemente, assumindo uma pose característica de quando se alimenta de mel em cativeiro. João Felipe Herculano, biólogo do Projeto Mantis, explica.

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HISTÓRIA NATURAL

A pesquisa de história natural trabalha com a descrição de fenômenos observados na natureza e desenvolveu-se muito desde as primeiras expedições naturalistas no país, porém caiu em declínio frente a pesquisas mais complexas envolvendo experimentos e testes de hipóteses. Hoje, publicar um relato puramente descritivo de comportamentos pontuais, ainda que inéditos, é muito difícil. As revistas científicas têm pouco espaço para este tipo de observação, o que não a torna menos importante. Registros como esse são cruciais para o desenvolvimento de estudos mais aprofundados em ecologia e evolução. São eles que geram novas hipóteses.

 

O fato de um louva-a-deus na natureza ingerir látex levanta diversas perguntas que podem ser respondidas em futuros estudos e experimentos por parte de outros pesquisadores. Conhecemos muito pouco de nossa fauna, e menos ainda de sua história natural. Esperamos que esse registro desperte em muitos um olhar apurado e curioso sobre a complexidade de interações e possibilidades em ambientes tão ricos e ameaçados como a Mata Atlântica e a Amazônia.