Vates phoenix é uma espécie emblemática: é a primeira espécie descrita por nossa equipe, o Projeto Mantis. É também a primeira espécie do gênero Vates identificada na Mata Atlântica. É um louva-a-deus belíssimo com uma pequena coroa e uma camuflagem entre folhas verdes e ramos de árvore, o que o torna quase invisível em nossas florestas.

O nome, "fênix", homenageia o Museu Nacional.

Ao longo de dois anos, descrevemos a espécie em parceria com o peruano Julio Rivera, um dos maiores especialistas em louva-a-deus do mundo. Antes, espécies de Vates eram conhecidas apenas para a Amazônia. Vates phoenix é endêmica da Mata Atlântica, com ocorrência registrada nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, de 7m a 600m de altitude. Pouco sabemos de seu habitat natural: todos os machos foram encontrados em armadilhas luminosas e a única fêmea foi encontrada andando em um caminho do Jardim Botânico, provavelmente após cair de uma árvore.

RIVERA, HERCULANO, LANNA, CAVALCANTE & TEIXEIRA, 2020

" A new species and first record of Vates Burmeister, 1838 from the Atlantic Rainforest (Mantodea: Vatinae) "

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CABEÇA

Projeções dos ocelos reduzidas, como uma pequena coroa

ANTENAS

Machos com segmentos da antena assimétricos (em forma de S)

ASAS

Fêmeas têm o segundo par de asas com extensa área branco-amarelada e parcialmente opaca

PERNAS

Lobo da tíbia traseira se estende por mais de 50% do total (e não só restrito ao meio)

HOMENAGEM AO MUSEU NACIONAL

Em 2 de Setembro de 2018 um incêndio de grandes proporções tomou conta do Museu Nacional, destruindo o prédio e mais de 20 milhões de itens do acervo. Entre eles, mais de 5 milhões de insetos da coleção entomológica, uma perda irreparável que continha parte importante da história da ciência e da biodiversidade do Brasil. Uma parcela ínfima, porém, ficou a salvo: um ano antes, nossa equipe pegou emprestada uma caixa com 13 louva-a-deus do gênero Vates para auxiliar na descrição de Vates phoenix. O nome é uma homenagem ao Museu Nacional. Fênix é um ser mitológico, representado como uma ave, com o dom de renascer das cinzas após entrar em combustão. Como parte dos animais descritos vieram do Museu Nacional, queríamos homenagear a instituição, que tanto contribui para a pesquisa no Brasil. O nome é uma forma de lembrar que o Museu Nacional vive, é eterno. O incêndio, de forma bruta e indesejada, marca um recomeço. Além da espécie nova, toda nossa coleção de louva-a-deus tem como destino o Museu Nacional, contribuindo para a renascimento do acervo.

EM BUSCA DA FÊMEA

Quando visitamos a coleção do Museu, buscávamos especificamente por uma fêmea, que nunca encontramos em nossas expedições. Entre os mais de 800 exemplares de louva-a-deus na coleção, havia apenas uma fêmea do gênero Vates, que por sorte era do Rio de Janeiro. Mais especificamente, a ficha indicava que a valiosa fêmea foi coletada em Maio de 1935 no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde temos nossa base. Porém, o animal estava antigo e fora fixado de forma imprópria, escondendo algumas características importantes para uma descrição detalhada. Na dúvida se incluíamos a fêmea na descrição, uma coincidência inexplicável resolveu o caso. Enquanto caminhava pelo arboreto do Jardim Botânico, nossa orientadora, Malu, encontrou um louva-a-deus cruzando o caminho. Quando ela nos chamou pra ver, mal acreditamos que se tratava exatamente da espécie nova, e dessa vez era uma fêmea. No mesmo mês de Maio, no mesmo local e oitenta e três anos depois, a belíssima fêmea de Vates phoenix reapareceu.

O MISTÉRIO DE SEU HABITAT

Apesar dos registros da espécie em diversas localidades, pouco sabemos sobre seu habitat, ou seja, onde encontrá-la na floresta. Acontece que, de todos os gêneros já vistos por nossa equipe, esse é o único que nunca vimos em seu ambiente natural. Nem mesmo jovens. Os machos que encontramos vieram em nossas armadilhas de luz. A única fêmea passava ao acaso, claramente deslocada de seu ambiente. Onde vivem os Vates phoenix selvagens segue um mistério. Acreditamos que possivelmente a espécie tenha preferência pelas copas das árvores, longe de nossos olhares (e buscas).

Na ausência de registros no ambiente natural, o ilustrador Paulo Ormindo produziu essa incrível ilustração científica a partir das informações obtidas ao criarmos os indivíduos coletados. A fêmea, com seu hábito de ficar pendurada, os braços quase em 90º com o corpo e o macho, voando em direção a ela. Ao fundo, o Rio de Janeiro, um dos locais de coleta da espécie.